Análise de Gran Turismo Sport | Simulação para todos realmente existe?

A série Gran Turismo, desenvolvida pela Polyphony Digital, está em vias de completar seus 20 anos como uma das franquias mais importantes e vendáveis das plataformas PlayStation e, com este entusiasmo, recebeu seu primeiro exemplar da geração atual de videogames: o Gran Turismo Sport.

Diferente de seus irmãos numerados, o Gran Turismo Sport recebeu uma injeção de adrenalina em sua veia esportiva. Esqueça as experiências voltadas às marcas de luxo e aos carros exóticos, pois a criação mais recente de Kazunori Yamauchi trouxe para as pistas de corrida os possantes carros e as rigorosas regras do automobilismo mundial.

O modo online é a estrela do jogo. Em acordo com a FIA (Federation Internationale de l'Automobile) o novo Gran Turismo Sport transportará os pilotos do automobilismo virtual para o mundo das competições reais, incluindo campeonatos virtuais que certificarão seus participantes e campeões para as pistas do mundo real. Sim, será possível ganhar licenças de pilotagem no mundo real correndo em um jogo de simulação.

Tudo isso parece extremamente empolgante, mas essas novidades cobraram seu preço. E o preço foi extremamente alto, como veremos a seguir.

Foco total no multijogador e no eSport

Para os adoradores dos tradicionais jogos da série Gran Turismo, com milhares de carros das mais diversas marcas do mundo, centenas de pistas celebres e uma profusão quase infinita de conteúdo e modos de corrida, quase tudo foi por água abaixo. O jogo tem como foco único as corridas online voltadas ao eSport e a proximidade da experiência de simulação realística.

Em Gran Turismo Sport é possível adquirir por volta de 150 carros para sua garagem, disponíveis para correr  em aproximadamente 20 circuitos. Ao menos inicialmente, antes da chegada dos prováveis DLCs, isso é tudo o que você vai encontrar no jogo. Apesar de pouco, é importante sermos justos ao lembrarmos que estes veículos são absolutamente bem detalhados, todos possuem painéis internos e excelentes qualidades gráficas, bem como os circuitos, que foram trabalhados em seus mínimos detalhes.

Fora isso, pode esquecer completamente as tradicionais experiências de campanha que permitiam evoluir desde as categorias do kart até o pináculo do automobilismo, nos carros protótipos de enduro ou de fórmula das principais categorias do esporte a motor. Nesta nova versão do jogo, seu destino final será realmente o mundo multiplayer dos eSports, sem passagem por qualquer tipo de campanha solo.

É é aí que mora o verdadeiro perigo.

O eSport é a grande vertente de Gran Turismo Sport, baseado no multijogador.

O eSport é a grande vertente de Gran Turismo Sport, baseado no multijogador.

Legal para o piloto iniciante

A primeira armadilha de Gran Turismo Sport se estende exatamente perante seu público alvo. A tentativa de se auto-denominar "A verdadeira simulação de pilotagem" e, ao mesmo tempo, "Automobilismo para todos" parece ter resultado em uma receita bastante perigosa.

Para o jogador iniciante ainda existe um caminho claro a seguir: você começa sua jornada na Escola de Pilotagem aprendendo a acelerar, frear, contornar curvas, tangenciar chicanes, executar derrapagens controladas, deslizar corretamente no cascalho, iniciar e concluir manobras de drift, etc. A escola de pilotagem está lá para você, com seus prêmios em bronze, prata e ouro, com o objetivo de desbloquear alguns novos carros para sua garagem e novos circuitos para suas competições.

Em uma etapa posterior, as Missões de Desafio e as Experiências em Circuitos trazem um pouco mais de emoção para o público em geral. Depois de concluída a experiência na escola de pilotos, pode ser muito atrativa a continuação do desenvolvimento em algumas das dezenas de Missões de Desafio que têm por objetivo forçar o aprendiz a alcançar boas posições em corridas, superar adversários da IA em momentos decisivos, além de gerenciar paradas nos boxes, consumo de combustível, etc. De forma semelhante, as Experiências em Circuito ajudarão o piloto iniciante a aprimorar seu tempo de volta em cada estágio dos poucos autódromos do jogo.

As etapas de aprendizagem foram devidamente alargadas para permitir que mesmo o mais novato dos pilotos possa se preparar e se colocar em condições de competir com os veteranos no modo online, incluindo ainda uma etapa de Boas Práticas, com o objetivo de desbloquear as corridas multijogadores no game. Tudo em prol da boa esportividade.

Tedioso para o piloto experiente

Tenho que alertar a você que, assim como eu - já largamente experiente em jogos de simulação, com habilidades de, pelo menos, um bom piloto virtual - a jornada no Gran Turismo Sport será árdua e muito, MUITO monótona. Isso porque uma das mais irritantes características da série continua ali: o jogo começa totalmente bloqueado, oferecendo acesso a apenas pouquíssimas pistas, pouco dinheiro para adquirir novos carros e, é claro, um modo online totalmente bloqueado.

Então, você, jogador experiente, perderá muitas horas aprendendo a frear e acelerar, trocar de marchas, tangenciar curvas, etc. antes de conseguir pilotar na pista que quiser, com o carro que quiser, contra pilotos reais, para disputar corridas como bem entender. Para correr no autódromo de Interlagos, por exemplo, você precisará chegar com seu avatar ao nível 18, o que vai demandar horas e horas de jogo, que podem ser investidas na Escola de Pilotagem ou nas Missões de Desafio (que não serão tão desafiadoras assim para você!), ou ainda no Modo Arcade, que permite criar corridas customizáveis, praticar contra o relógio e mais algumas opções, com algum carro mais ou menos aceitável, em duas ou três pistas interessantes que estejam desbloqueadas desde o princípio, como Brands Hatch.

Nada tão instigante como um modo carreira estará em seu caminho para animá-lo a fazer algumas corridas básicas antes de se dedicar ao automobilismo de verdade. Sua jornada será longa pelos poucos meandros de conteúdo básico existentes no jogo, isso sem contar as aulas de boas práticas, obrigatórias para desbloquear o Modo Online, onde encontraremos a verdadeira ação e intenção do jogo.

Este é, sem dúvida, um tedioso agravante de Gran Turismo Sport em comparação a outros jogos concorrentes, que também se auto-denominam simuladores. Em geral, simuladores oferecem conteúdo totalmente livre para você iniciar sua jornada correndo as 24 horas de LeMans, em um protótipo LMP1, desde a primeira vez que abre o jogo, se assim o desejar.

Sua alternativa, então, será relaxar, respirar fundo e rever conceitos básicos de pilotagem e desafios mornos, durante horas e horas, até atingir um nível que permita desbloquear todos os elementos do jogo - incluindo o modo online - e aproveitar tudo o que Gran Turismo Sport tem a oferecer no campo da simulação. Boa sorte com isso.

Jogadores experientes podem sofrer com o tédio nas fases iniciais de Gran Turismo Sport.

Jogadores experientes podem sofrer com o tédio nas fases iniciais de Gran Turismo Sport.

Simulação vs. Realidade

Um detalhe que claramente precisa de ser exaltado é a dirigibilidade em Gran Turismo Sport. Sem dúvidas o jogo se aproxima muito da realidade das pistas. Mesmo com alguns tropeços, sobre os quais falaremos mais adiante, fica muito claro desde o início que esta edição da franquia se apoia muito mais no realismo.

Acelerar descontroladamente não basta. É preciso realmente aprender a controlar o carro em uma condição de alta velocidade para sentar atrás do voltante - ou do joystick - por aqui. No meu caso, que utilizo um volante, e recomendo, a sensação de pilotagem evoluiu muito para o lado da simulação, sem dúvida, quando comparada com os jogos anteriores da série. Apesar de ainda não alcançar a dirigibilidade de outros simuladores realísticos como rFactor, Assetto Corsa ou Projetc CARS, sem dúvida a Polyphony Digital está caminhando de forma consistente para este nicho.

Além das reações em pista serem suficientemente reais, o menu de ajustes para o carro é bastante completo, bem como suas capacidades de variações de gasto e ajuste de mistura de combustível, balanceamento de freio e diferencial, que podem ser manipulados durante a corrida. Um ponto negativo neste quesito vai para os menus de engenharia do carro, que são bastante confusos e pouco explicativos, se comparados com outros jogos de simulação automobilística.

Uma boa telemetria também faz bastante falta na hora de analisar os ajustes e a performance do carro. Fora a sensação de pilotagem na pista, existem poucas informações sobre o desempenho do carro no longo prazo. Algo essencial para pilotos dedicados às corridas de enduro.

Mas, finalmente, existe desafio real ao desligar todos os controles eletrônicos e pilotar um carro da classe GT3 em torno do desafiador circuito de Mount Panorama, na Austrália. Freadas bruscas resultam em travamento de rodas ou saídas de pista, que podem ou não serem automaticamente corrigidas pelo jogo, obrigando o piloto a manobrar seu veículo com cuidado sobre a brita no modo manual. Além disso, as configurações de ajuste do veículo realmente resultam em melhor ou pior dirigibilidade, mais ou menos consumo de combustível e impactam diretamente na performance e no desgaste dos pneus.

Para um jogo nascido da raiz arcade dos jogos de corrida, uma evolução muito bem vinda.

Realismo na jogabilidade chama atenção em Gran Turismo Sport, mesmo para os pilotos mais experientes.

Realismo na jogabilidade chama atenção em Gran Turismo Sport, mesmo para os pilotos mais experientes.

Gran Turismo Sport e o ápice gráfico

Mas vamos fazer justiça ao que este jogo tem de melhor. Gran Turismo Sport é extremamente robusto em relação às suas qualidades gráficas, como é de se esperar de um jogo da Polyphony Digital.

Mesmo com poucos veículos e pistas, os detalhes estão muito mais impressionantes. Para começar, conforme já comentado nesta análise, todos os veículos possuem painéis completos para quem deseja pilotar do cockpit, como um verdadeiro piloto. Estes painéis são bastante bem trabalhados, se equiparando e até mesmo superando os simuladores concorrentes.

Já o exterior dos veículos e o entorno das pistas trazem detalhes verdadeiramente impressionantes. A iluminação é impecável e oferece um aspecto muito realista, algo que também é válido para os autódromos. Da mesma forma, a reação dos personagens em torno do circuito, como fiscais de pista e equipe dos boxes, também foram bastante bem trabalhadas.

Desta forma, fica muito clara uma das vertentes mais efetivas do jogo: o Modo Paisagem ou Fotografia. Gran Turismo sempre foi a série ideal para mostrar as capacidades gráficas do seu novo console para os amigos e, é preciso dizer, continua sendo. Tirar fotos do seu carro predileto ou da ação nas pistas de corrida será puro prazer para quem curte a vertente mais artística do game.

Outro detalhe importante foi a melhoria considerável na sonorização dos veículos. Apesar deste nunca ter sido o ponto alto da série Gran Turismo, o novo jogo Sport fez um bom trabalho em aprimorar este quesito.

Por outro lado a perfeição cobra seu preço mais uma vez, como veremos a seguir.

Mais uma vez os gráficos são o ponto alto do novo jogo da série.

Mais uma vez os gráficos são o ponto alto do novo jogo da série.

Clima dinâmico, mas não muito

A grande novidade dos simuladores desta geração não está nas suas capacidades gráficas, mas em sua eficácia ao simular as situações reais de corrida. Jogos de simulação nascidos nesta geração, como Project CARS, por exemplo, permitem ao jogador simular de forma totalmente realista uma corrida de 24 horas, com alterações dinâmicas de clima, dia e noite.

Eu mesmo já realizei duas corridas das 24 horas de LeMans, em tempo real, com mudanças de clima, que foram do sol escaldante à chuva torrencial, atravessando a noite e o dia, em simuladores concorrentes. Infelizmente isso não será completamente possível em Gran Turismo Sport.

Uma das regras impostas pela própria Polyphony Digital ao seu produto é a de que o jogo rode em 60 fps absolutamente em qualquer condição, seja dia, noite, com apenas um carro na pista ou em um gride cheio, com mais de trinta veículos. Para permitir isso e, ao mesmo tempo, oferecer toda a potência gráfica do jogo, foi retirado o elemento de clima dinâmico do jogo. Ou seja, ainda é possível correr uma prova de 24 horas, porém o clima não sofrerá alteração.

Mais uma vez, um problema bastante arriscado para um jogo que se auto-denomina de simulação, mas que deve impactar poucos jogadores no fim das contas. Apenas malucos como eu, que se deleitam em provas longuíssima de enduro, sentirão falta desta importante porção do realismo.

O clima dinâmico foi retirado do jogo para garantir os 60 fps com alta qualidade gráfica.

O clima dinâmico foi retirado do jogo para garantir os 60 fps com alta qualidade gráfica.

Campeonatos e licenças reais no mundo virtual

Gran Turismo Sport é, sobretudo, um jogo voltado ao eSport. Esta afirmação nasceu com o projeto e tornou-se anúncio oficial da Polyphony Digital desde as primeiras aparições do game na mídia. Por isso não sejamos inocentes a este respeito. Trata-de de um novo modelo dentro da franquia e é preciso respeitar a mudança em toda e qualquer análise.

Além de ficar muito claro que o objetivo principal do jogo é o modo online, Gran Turismo Sport recebeu ainda licenciamento da FIA (Federation Internationale de l'Automobile) para seus campeonatos oficiais e, dessa forma, os torneios de Gran Turismo Sport terão validade oficial também no mundo do automobilismo real.

Seguindo os modelos oficiais, os torneios se dividirão em duas vertentes: o Campeonato de Construtores, disputado pelas equipes, e o Troféu das Nações, representando o Campeonato de Pilotos. Ambos campeonatos serão disputados em diferentes regiões do mundo, divididas em Ásia, Europa e Américas, sendo que seus vencedores participarão das finais mundiais.

Ao final de cada ano, enquanto as categorias do automobilismo real estiverem de férias, serão eleitos os melhores pilotos do mundo virtual em Gran Turismo Sport, que ganharão licenças de competição para o mundo real.

Sem dúvida esta será a maior consagração de Gran Turismo Sport e, se for capaz de chamar a devida atenção tanto dos espectadores virtuais quanto do mundo real, terá cumprido seu papel com maestria.

Apesar de não se tratar de um Gran Turismo 7 cheio de conteúdo, o novo Gran Turismo Sport seguirá no difícil papel de representar a franquia nesta geração de consoles por algum tempo, levando em conta todas as suas limitações. Esperamos que consiga superá-las e cumprir este papel ao longo dos anos, até que recebamos a próxima e tão aguardada edição numerada da série.

Mecânicas8
História7.5
Gráficos10
Jogabilidade8
Diversão6
Custo x Benefício6
Gran Turismo Sport tenta ser, ao mesmo tempo, a "Verdadeira simulação de pilotagem" e o "Automobilismo para todos", duas vertentes muito sinuosas que levam a experiência a altos e baixos, principalmente para os pilotos virtuais mais experientes. Os gráficos impressionantes e a efetiva melhoria na jogabilidade não conseguem justificar completamente a falta de conteúdo interessante.
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